quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Universidade dos Monstros ganha teaser

A Pixar divulgou na última terça-feira o primeiro teaser de TV de Universidade de Monstros (Monsters University, 2013), prequel da animação Monstros SA (Monsters Inc, 2001).

O estúdio inovou ao apresentar o local do novo filme como se fosse uma universidade comum, convidando os espectadores a se matricularem por lá. Para completar a  estratégia de marketing, o teaser foi veiculado durante o intervalo do Rose Bowl, partida tradicional do futebol americano universitário, que acontece sempre no dia 1º de janeiro.

Em 32 segundos, a Pixar convida os espectadores a conhecerem os cursos oferecidos pela Universidade de Monstros, que já tem até site oficial.

A nova trama, que irá se passar antes dos acontecimentos de Monstros SA, irá mostrar como os então estudantes Mike Wazowski e Sulley viraram grandes amigos durante o Ensino Superior.

Estão confirmados no elenco Billy Crystal, que fará a voz de Mike, John Goodman (Sulley) e Steve Buscemi, que interpreta o lagarto Randall, arquirrival da dupla em Monstros SA. O responsável pela direção, no entanto, será Dan Scanlon, que não estava envolvido no projeto de 2001.

A estreia de Universidade de Monstros no Brasil está marcada para o dia 21 de junho deste ano.

Veja o teaser:

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Meus melhores filmes de 2012

Findo o ano, é chegada a hora de relembrar e render homenagens aos melhores filmes que passaram pela tela grande ao longo dos últimos 366 dias.

Abaixo, preparei uma lista com os cinco que mais me agradaram em 2012, restringindo a seleção àqueles que pude ver nos cinemas, ficando de fora os que assisti por torrent, DVD ou outros meios. Cada longa terá uma breve descrição de seu enredo e o motivo que o levou a figurar entre os cinco destaques de 2012. Vale lembrar também que considerei o ano de exibição aqui no Brasil - como vocês poderão ver, a maioria dos longas saíram, originalmente, em 2011.

Fique à vontade para montar sua lista nos comentários!


Shame (idem, 2011) - Um mergulho profundo na rasa vida sentimental de Brandon (Michael Fassbender), um homem para quem é impossível estabelecer uma relação afetiva duradoura com uma mulher - ou qualquer outra pessoa. Sem afeto, Brandon busca uma cura para seu isolamento no sexo, que vira uma compulsão quase insuperável.

O longa dirigido por Steve McQueen toma o sexo como mote para explorar um tema bastante discutido nos dias atuais: a falta de substância nas relações humanas, como a cada dia conhecemos menos uns aos outros, como pessoas de uma mesma família podem, por vezes, ser completos estranhos. Uma bela crônica sobre o homem contemporâneo.



Intocáveis (Intouchables, 2011) - Philippe (François Cluzet), um paraplégico milionário cansado de ser tratado com pena pelos outros, contrata um ex-presidiário, Driss (Omar Sy), para ser sua "babá". O relacionamento entre os dois floresce de maneira inesperada, construindo uma bela relação de amizade.

Baseado em uma história real, Os Intocáveis é um filme emocionante desde a primeira tomada. É impossível não ser contagiado pela alegria inata do personagem vivido por Omar Sy, um cara que não se deixa abalar, apesar de ter uma vida bastante problemática. Sua postura ante as limitações de Philippe faz com que os preconceitos do próprio espectador se esmaeçam, gerando uma empatia impressionante pela dupla. Minha única ressalva com relação ao filme é mostrar, no final, as pessoas nas quais os personagens foram inspirados, algo desnecessário a meu ver. De resto, é forte concorrente ao Oscar de melhor filme estrangeiro.




Heleno (2012) - Narra a história do Príncipe Maldito, Heleno de Freitas, atacante que foi ídolo do Botafogo durante a década de 40. Um dos primeiros "bad-boys" do futebol brasileiro, Heleno descreveu uma trajetória meteórica entre a glória e o ostracismo, que experimentou em tons trágicos no fim da carreira e da vida.

Numa época em que o futebol era majoritariamente amador, imagine um atacante, o melhor do Brasil, que fosse formado em Direito e gostasse de se vestir com as melhores roupas e ostentar os melhores veículos, adotando um estilo bem diferente dos boleiros daquele tempo. Esse foi Heleno de Freitas, retratado de maneira tão competente por Rodrigo Santoro no longa dirigido por José Henrique Fonseca. O filme, por sinal, já foi tema de um post aqui no blog, e por aquela velha dificuldade dos filmes brasileiros de conseguir um circuito amplo no país foi visto por pouca gente. Vale a pena comprar o DVD!



A Separação (Jodaeiye Nader az Simin, 2011) - Um casal da classe média iraniana entra em conflito ao ter de tomar uma decisão: ficar no país em um momento politicamente confuso ou sair para garantir um futuro melhor para a filha.

Essa foi a primeira vez que vi um filme iraniano no cinema, e minha impressão foi a melhor possível. Para além de todos os méritos cinematográficos, A Separação apresenta um Irã muito diferente daquele apresentado pelo noticiário que chega até nós, que resume o país ao fanatismo religioso e político atrelados à figura de Mahmoud Ahmadinejad. Fora isso, o longa dirigido por Asghar Farhadi tem um roteiro - também escrito por ele - muito bem amarrado, com personagens secundários que acrescentam muito à história.




Deus da Carnificina (Carnage, 2011) - Dois casais marcam um encontro para discutir de maneira racional e adulta uma briga envolvendo seus filhos, mas, com o passar do tempo, eles acabam se mostrando mais infantis que as próprias crianças.

À primeira vista, a história parece ser bem estrita, e é mesmo. Todo o longa gira em torno de quatro personagens, interpretados por Jodie Foster/John C. Reilly e Kate Winslet/Christoph Waltz,  que dividem praticamente o mesmo cenário, um apartamento, durante os 80 minutos de projeção. Esse caráter claustrofóbico se deve, em parte, ao filme ser uma adaptação da peça homônima escrita pela francesa  Yasmina Reza. Mas não pense que isso torna o filme monótono... Ajudado por atuações primorosas de todos os atores, Polanski nos entrega uma divertida reflexão sobre temas como moral e responsabilidade.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

A cena mais epicamente tosca de 2012

Não me perguntem por quê, mas 2012 foi um ano em que proliferaram homenagens a Abraham Lincoln no cinema. O 16º presidente americano, responsável por conduzir o país durante a Guerra Civil e assassinado em 1865, foi retratado pelo menos em três longas lançados este ano. 

O primeiro e mais importante, obviamente, é o filme dirigido por Steven Spielberg e estrelado por Daniel Day-Lewis (Lincoln, 2012), que chega ao Brasil no dia 25 de janeiro. Mas foram feitos também outros dois filmes, colocando o lendário presidente americano em situações, digamos, bem inusitadas.

Um deles foi Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros (Abraham Lincoln: Vampire Hunter, 2012), dirigido pelo russo Timur Bekmambetov. Como o nome do filme deixa bem claro, Lincoln começa a caçar os chupadores de sangue ao descobrir que eles têm um plano para dominar os EUA. 


Finalmente, para fechar a trinca, a obra de arte que será protagonista deste post na seção Frames para Sempre. Tentando pegar carona na febre zumbi impulsionada pela série The Walking Dead, o caríssimo diretor Richard Schenkman filmou Abraham Lincoln vs. Zombies, uma fantástica abordagem apocalíptica da Guerra Civil americana - sarcasmo mode on, por favor. Na história, Lincoln tenta impedir a disseminação dos zumbis confederados, que ameaçam o restante do país. 

Bom, a nota do filme no IMDb quando este texto foi escrito era 3.1, então nem preciso dizer que ele é muito ruim, né? No entanto, se ainda resta alguma dúvida, por favor, veja essa cena épica abaixo, com certeza a mais tosca que vi este ano. 

Certamente, a melhor barba da história
do cinema
São tantos pontos brilhantes a serem destacados que fica até difícil enumerá-los, mas note pelo menos a barba absurdamente postiça, daquelas que você compra no Saara ou lugar semelhante, vestida pelo general confederado. Tem também os zumbis com medo do fogo, e incapazes de morder um monte de carne fresca passando no meio deles - repare que alguns deslizam as mãos na "presa". 

Logo a seguir, após o general cumprir sua gloriosa missão de explodir um forte cheio de zumbis, o presidente e seu lacaio escapam das chamas incrivelmente reais, feitas no Movie Maker, com a ajuda de uma corda! Sim, Schenkman fez a proeza de colocar Abraham Lincoln praticando rapel no cinema. Não satisfeito, ele ainda arrematou com uma reaparição gloriosa do presidente, vindo do meio da fumaça, com uma trilha sonora daquelas inesquecíveis, de tão ridículas - certamente ele achou que iria ganhar o Oscar com essa tomada. 

Enfim, acho que já falei demais, delicie-se com a cena mais epicamente tosca do ano.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Trouble with the Curve, ou um pouco da minha idolatria por Clint Eastwood


Depois de muito tempo sem postar por aqui por razões mil, resolvi voltar para falar de um filme que vi esse fim de semana. Não, não foi a tão alardeada volta de Peter Jackson à Terra Média que me fez espanar as teias de aranha do teclado. Foi um outro filme, lançado sem muito alarde aqui no Brasil: Curvas da Vida (Trouble with the Curve, 2012).

Esse longa marca a estreia de Robert Lorenz como diretor - antes ele produzira alguns filmes, com destaque para várias parcerias com Clint Eastwood - mas isso é o menos importante. O que realmente interessa é que o próprio Clint está de volta à telona após quatro anos. Uma volta até certo ponto inesperada, porque ele mesmo havia dito que Gran Torino, de 2008, seria seu último filme como ator, algo que, ainda bem, não se concretizou.

Gus e sua filha Mickey
No debute de Lorenz na direção, Clint Eastwood interpreta Gus, um olheiro de um time de beisebol que começa a ter dificuldades para exercer sua profissão devido a um problema na vista, que o impede de avaliar apropriadamente os jogadores com potencial para entrar na Major League Baseball (MLB), liga profissional americana. Gus tem uma filha chamada Mickey (Amy Adams), com quem tem uma relação conflituosa. Destacado para examinar um garoto promissor na Carolina do Sul, Gus acaba tendo a ajuda da filha nesta missão de recrutamento, que pode ser a última de sua vida.

O roteiro do filme é até redondo, bem resolvido, porém um tanto óbvio, daqueles bem meticulosos, onde você sabe muito bem o que vai representar cada elemento introduzido ao longo da história. Dentro do recorte de longas que têm o beisebol como plano de fundo, não chega nem perto de O Homem que Mudou o Jogo (Moneyball, 2011), por exemplo. Mas, ainda assim, é um filme que deve ser visto, e se você for só um pouco fã da filmografia de Clint Eastwood, vai entender porque agora.

Do alto de seus 82 anos e sei lá eu quantos filmes, Clint, uma dos nomes de maior peso na história de Hollywood, pode ter aparecido pela última vez num longa-metragem. Pensar que "O homem sem nome" não faz mais Weterns há um bom tempo já é desalentador, mas a possibilidade de não vê-lo mais em nenhum tipo de produção cinematográfica, confesso, me deixou um pouco taciturno neste domingo.

Clint tem umas posições políticas que me desagradam, vide o apoio declarado a Mitt Romney nas últimas eleições americanas, mas, no cinema, para mim ele sempre foi um herói, um role model, como os americanos costumam dizer, mesmo quando vivia personagens extremamente pragmáticos e amorais, como na Trilogia dos Dólares, meus filmes preferidos dele. Pensar no seu afastamento definitivo da sétima arte realmente é perder mais um ídolo que ajudou a edificar minha paixão pelo cinema.

Uma cena em especial me fez verter lágrimas em Curvas da Vida. Em certo momento, Gus faz uma visita ao túmulo da esposa, que morreu quando sua filha tinha apenas seis anos. Ele vai lá para desabafar, falar dos problemas de relacionamento com Mickey e, em dado momento, começa a cantar "You're my Sunshine", de Johnny Cash. Não sei porque isso me veio à cabeça na hora, mas parecia que o "don't you take my sunshine away" que ele sussurrava para a esposa morta, na verdade, marcava sua própria despedida, como um aviso, uma sensação muito estranha, a mesma que tive quando assisti Luzes da Ribalta (Limelight, 1954) pela primeira vez, embora ali eu já soubesse que de fato se tratava do canto do cisne de Chaplin, uma despedida declarada, embora ele ainda tenha feito dois filmes depois.

"O Bom" em Três Homens em Conflito
Isso sem falar no personagem dele em si, um cara antiquado, que ainda consulta pilhas de jornais velhos para checar os dados de determinado jogar, enquanto os novos profissionais têm esses dados em seus modernos softwares de base de dados. Parece muito uma alegoria à posição do próprio Clint em relação à indústria cinematográfica, um ex-galã de uma grande fase do cinema que não existe mais, e ele ainda ali, perambulando, procurando seu espaço - certo, talvez eu esteja exagerando, mas às vezes é difícil aceitar que o tempo passa...

Resta torcer para que este seja só mais um filme na extensa filmografia dessa lenda viva  da história do cinema.

Para saber um pouco mais sobre o filme, confira o trailer abaixo:

domingo, 7 de outubro de 2012

O Iluminado de Stephen King e Stanley Kubrick: diferenças entre o livro e o filme

Receber a notícia de que uma narrativa literária da qual se é fã vai ganhar as telas de cinema quase sempre é motivo de alegria. Afinal, aquela história pela qual você tanto preza vai ser contada para mais pessoas, agora com o recurso da imagem. Seus personagens, os favoritos e aqueles mais detestados, terão um rosto definido e ficarão ainda mais fixados em sua memória afetiva. 

Essa mudança de mídia, entretanto, também costuma trazer problemas. Não é raro encontrar pessoas que leram um livro adaptado para o cinema lamentarem a ‘deturpação’ da história, ou a escolha equivocada de um ator para determinado papel, direção sem pulso, e vários outros detalhes que fazem a diferença – nessa hora, até a trilha sonora, inexistente na literatura, é questionada pelos fãs. 

Nesse artigo, irei analisar um exemplo clássico desse tipo de ruído gerado quando um livro é adaptado para a sétima arte. O Iluminado (The Shining), escrito por Stephen King em 1977, uma das referências quando o assunto é o gênero terror. A obra caiu nas mãos de Stanley Kubrick, que após terminar Barry Lyndon (1975), um filme de época que obteve pouco sucesso nas bilheterias, resolveu aventurar-se em um novo gênero, o mesmo tão explorado pelo escritor americano. Kubrick comprou os direitos de O Iluminado e o longa, até hoje considerado um épico dos filmes de terror, saiu em 1980 com expressivo sucesso de público. 

Os questionamentos quanto à fidelidade do filme feito pelo cineasta americano ao livro de King não demoraram a surgir. Muitos leitores reclamaram do estilo autoral de Kubrick, que sempre impregnou seus roteiros de uma perspectiva bastante pessoal das obras que adaptava – fora assim com Laranja Mecânica (Clockwork Orange, 1971) e Lolita (idem. 1962), para citar alguns exemplos. Até o próprio Stephen King, insatisfeito com a versão cinematográfica de seu romance, acabou produzindo, em 1997, uma série de TV em três capítulos sobre O Iluminado, adaptação muito mais fiel ao livro. 

A pergunta que se coloca nesses casos é: até que ponto é válido falar de uma ‘fidelidade’ à obra original? Uma nova leitura de um romance ou até mesmo o relançamento de um roteiro deve ser limitada pelas características presentes no original? Esses são alguns pontos que serão tratados nas próximas páginas deste artigo. 

OS ELEMENTOS DO ROMANCE 

Para início de conversa, vamos traçar um pequeno panorama do que é apresentado por Stephen King em seu livro. O Iluminado conta a história da família Torrance, formada pelo pai, Jack, a mãe, Wendy, e o filho, Danny. Desempregado, Jack consegue uma vaga como zelador de inverno do Overlook, um hotel de veraneio que fica completamente isolado do resto do mundo durante a época mais fria do ano. Acompanhado de sua família, Jack terá que cuidar das instalações do Overlook de outubro a maio do ano seguinte. 

À primeira vista, parece uma missão simples, mas King nos dá alguns elementos que vão construir a dramaticidade – e o terror – da história. Jack Torrance é um professor universitário, especializado em literatura americana, e perdera seu último emprego por conta de um problema pessoal com um de seus alunos. Jack liderava um grupo de estudos do qual fazia parte George Hatfield e, após uma série de desentendimentos, George fica furioso com o professor, a ponto de tentar furar os pneus do carro dele. Jack pega seu pupilo no flagra, e acaba espancando-o no estacionamento da universidade. 

O patriarca da família Torrance também carregava consigo a estigma de ser um alcoólatra – o mesmo fardo do pai, presente em varias recordações do personagem. O vício, por sinal, já o levara a um acesso de fúria bem antes do episódio que resultou em sua demissão. Quando Danny tinha apenas três anos, teve o braço quebrado pelo pai depois de bagunçar alguns papéis de seu escritório, entre eles uma peça na qual Jack trabalhava. O incidente fragilizou e muito a relação do casal Wendy/Jack, que via a temporada no Overlook como sua última chance. 

Shelley Duvall interpreta Wendy
no filme de Kubrick
Wendy, assim como Jack, tinha um relacionamento conturbado com os pais, em especial com a mãe. Assombrada pelo comportamento instável do marido, ela se via presa à relação justamente por não ter para onde ir – a volta para casa era vista como um grande fracasso. 

Por fim, Danny, o garoto cujo dom intitula o romance. Danny é considerado ‘iluminado’ por ter uma sensibilidade diferente com relação ao ambiente que o cerca. Ele é capaz de ver coisas, ouvir pensamentos e ser influenciado por espíritos que nem sempre desejam seu bem. Ele tem um amigo imaginário chamado Tony, que o alerta sobre os perigos que rondavam a mudança para o Overlook. Apegado ao pai, ele ignora os alertas em nome de uma possível redenção de Jack. 

Danny falando com Tony no filme:
presságio de um futuro macabro 
Por esses pontos, fica flagrante que o terror pretendido por Stephen King tem um fundo místico, baseado na premissa de que Danny Torrance seria capaz de ver os fantasmas que assombram o Overlook desde sua fundação em 1909 – o local, como é detalhado no livro, foi palco de vários assassinatos ao longo dos anos. Fica claro também, pela construção psicológica dos personagens, que a estada no hotel não será boa; todo um tom fatalista é erigido em torno do destino de cada membro da família Torrance. 

DECIFRANDO A VISÃO DE STANLEY KUBRICK 

Real is good. Interesting is better. 
Stanley Kubrick 

Se na versão literária de O Iluminado temos uma construção psicológica densa, que direciona a narrativa para os acontecimentos funestos que terão lugar no Overlook, o filme de Kubrick, ao contrário, não nos conta nada. E isso não é uma negligência do diretor e/ou roteirista, é uma opção. 

Imensidão do hotel acentua a
sensação de insegurança
Kubrick descarta todo o background da família Torrance para centrar a construção de seu universo fílmico no Overlook. Os corredores intermináveis, a neve, a imensidão do prédio são elementos utilizados por ele para criar uma atmosfera de dúvida, deixar o espectador com a sensação perene de que algo não está certo.  

Um dos aspectos decisivos para o sucesso visual do filme foi o uso ostensivo da steadicam, técnica de filmagem que havia acabado de ser criada. Com a câmera móvel, acompanhando as andanças dos personagens pelo hotel, Kubrick, ao contrário da estética clássica do terror, que sempre optou por esconder o ponto de ação, o diretor deixa sempre o cenário muito amplo e visível, o que coloca o espectador dentro da cena. 

Steadicam faz de cada passeio
de velotrol um pesadelo
Para aproveitar melhor essa estética visual do longa, Kubrick também insere alguns elementos que não estão no livro e acabam sendo decisivos para a construção da tensão. O primeiro deles são os passeios de velotrol de Danny pelos corredores do hotel. O diretor usa a câmera móvel para nos colocar no ângulo de visão de Danny (Danny Lloyd), bem perto do chão, e a imensidão quase opressora do prédio sobre o garoto fica latente. A cada curva para entrar em um novo corredor, vivemos a expectativa de encontrar alguns dos mistérios que o Overlook esconde – esse uso da câmera, ao mesmo tempo que nos coloca perto da visão do personagem, também passa a impressão de um voyeur que tudo segue, podendo ser interpretada como a visão do próprio hotel sobre seus hóspedes. 

Ápice da loucura em palavras repetidas
Um segundo elemento é a peça que Jack Torrance (Jack Nicholson) pretende terminar durante seu período como zelador. Esse trabalho literário de Jack aparece no livro, mas não tem tanto destaque como no filme de Kubrick, que utiliza a frase “Only work and no play makes Jack a dull boy” repetidas várias vezes ao longo dos originais para dar forma a uma das cenas mais perturbadoras do filme, o momento em que a loucura do protagonista se torna insuperável. 

Dentro dessa composição de uma atmosfera de insanidade deve-se destacar também a maneira como Kubrick trabalhava. Perfeccionista, ele costumava repetir um mesmo take à exaustão, por mais que a cena ideal fosse obtida logo nas primeiras tentativas. Nos extras do DVD de O Iluminado, um dos biógrafos de Kubrick lembra que a loucura que Jack Nicholson consegue imputar em seu personagem, culminando na icônica cena do arrombamento no banheiro do quarto, seguido do grito “Here’s Jhonny”, se deve muito à repetição exaustiva. Aquele Jack Nicholson que aparece no filme é resultado da 26ª ou 27ª tentativa do ator que, sem saber mais o que tirar da cena, acaba explorando expressões e gestos cada vez mais exagerados, insanos. A loucura é quase naturalizada no processo de filmagem. 
HERE'S JOHNNY!

Uma das maiores críticas de Stephen King ao filme de Kubrick era exatamente essa sublimação do passado de problemas psicológicos dos personagens. Para o autor do livro, a insanidade apresentada por Jack Torrance no Overlook, no filme, é inexplicável, não se sustenta pois problemas como o alcoolismo ou os conflitos com o pais sequer são mencionados. 

Por isso, na sua minissérie para a televisão, de 1997, King gasta todo o primeiro episódio na apresentação dos antecedentes da família Torrance. É uma tentativa válida, mas que alonga demais a história. A versão audiovisual de King para o livro tem quase quatro horas e meia de duração, dividida em três episódios. Aqui vale a discussão: a versão de Stephen King leva para a tela quase todos os elementos do livro, mas será por isso mais ‘fiel’ ao romance?  

Stephen King fez outra versão
do filme em 1997
A meu ver, nem um pouco. O autor não pode esperar que um livro seja um pacote fechado entregue aos leitores, que vão abri-lo e encontrar sempre a mesma arrumação, como foi programado. Retomando um termo que empreguei no começo do texto, ‘deturpar’ uma história faz parte do processo de interiorizá-la, buscar sentido. Kubrick tinha essa noção de leitura voltada para o cinema bem consolidada, tanto que, mesmo mudando radicalmente alguns elementos do romance, consegue transportar para a tela toda a atmosfera de tensão e perigo que o hotel Overlook passa ao ser lido no romance de Stephen King. 

Ao tentar readquirir o domínio sobre seu livro, King produz uma minissérie televisiva que não considera a transição de mídia. Assim sendo, produz um seriado enfadonho, que tenta explicar demais a situação, com diálogos exagerados e por vezes pueris, como se desconhecesse que o elemento visual já diz muita coisa, tornando desnecessários alguns diálogos que só cabem no contexto da literatura.