sábado, 7 de janeiro de 2012

Parnasianismo brasileiro: uma reaproximação entre o o belo e a técnica

“O que é verdadeiramente belo não serve para nada: tudo o que é útil é feio, porque é a expressão de uma necessidade, e as necessidades do homem são ignóbeis e repugnantes como sua pobre e uniforme natureza. O lugar mais útil em qualquer casa são as latrinas.” - GERSHMAN; WHITWORTH

Alphonse Lemerre, organizador da
coletânea Le Parnasse Contemporain
A poesia parnasiana no Brasil, seguindo os modelos parisienses que se disseminavam por aqui durante a Belle Époque, primou pela superposição da técnica em relação à inspiração poética. A matriz da literatura parnasiana estava fundada na valorização da forma, ou seja, da técnica de construção do poema, em detrimento do fazer poético que era o principal alicerce do Romantismo, escola literária que predominou no país durante grande parte do século XIX. A começar pela nomenclatura, que advém da coletânea Le parnasse contemporain, obra que preconizava a volta ao mundo grego no tocante à rima, métrica e impassibilidade nas descrições. Esse contraste coloca em evidência uma questão essencial, há muito tempo debatida pela filosofia: há uma diferença entre o fazer artístico e o fazer técnico? 

Analisando a etimologia da palavra grega techné, vemos que arte e técnica já estiveram unidas em um mesmo significado. A bifurcação dos sentidos começa a acontecer no período clássico, quando a ideia de arte se funde ao belo e relega à técnica um papel de menor valor, representado pelas artes mecânicas e manuais, algo bem distante das belas-artes, onde o talento e inspiração artísticos valiam mais do que qualquer método de construção. O que a epígrafe deste artigo evidencia é que o Parnasianismo surge como lugar em que o primor fundamentalmente técnico trabalha em favor da arte bela. Vejamos então como esta corrente literária dialoga com os conceitos acerca da natureza da arte, sejam eles os paradigmas didático, romântico e clássico, colocando o parnasianismo como essa volta às origens etimológicas da techné, ou seja, união entre técnica e arte. 

Théophile Gautier – introdutor da estética
Parnasiana da "arte pela arte"
A propósito, é sintomático que um dos temas mais recorrentes no Parnasianismo seja o período clássico. Em artigo sobre o ideal classicizante da poesia parnasiana no Brasil, Fernando C. Gil salienta que a atitude de exaltação da forma no Parnasianismo se explica pela tentativa de resguardar o valor de culto da arte. “Penso que não seria de todo equivocado afirmar que o poeta parnasiano procura, com esta atitude poética, resguardar, consciente ou inconscientemente, pouco importa, aquilo que Walter Benjamin chamou de valor de culto. (...) O valor único da obra de arte ‘autêntica’ tem sempre um fundamento teológico, por mais remoto que seja: ele pode ser reconhecido, como ritual secularizado, mesmo nas formas mais profanas do culto do Belo”. Essa atitude de preservar o valor de culto, segundo o autor, é motivada pelas circunstâncias históricas nas quais o movimento parnasiano se desenvolve: ascensão do capitalismo, reprodutibilidade cada vez mais presente, o que faz evanescer a noção aurática da obra de arte, levando o poeta a “fundar uma teologia da arte, a ideia de ‘arte pura’, a noção da ‘arte pela arte’”, afirma Fernando C. Gil. 

O problema é que, ao voltar as atenções inteiramente para esse status de sublime do apuro vernacular, o Parnasianismo passa a utilizar-se de uma ênfase retórica que esvazia o seu conteúdo – uma espécie de sofismo literário, que, nessa busca pela remontagem ou imitação do período clássico mostra amplo domínio sobre o instrumento da linguagem, mas prescinde de um envolvimento, conhecimento do ambiente que o cerca. Essa espécie de alienação foi condenada pelo crítico literário Antônio Cândido, para quem o poeta parnasiano “conserva e elabora traços desenvolvidos depois do Romantismo, sem dar origem a desenvolvimentos novos; e, o que é mais, parece acomodar-se com prazer nesta conservação”. 

A "Tríade Parnasiana": Olavo Bilac,
Raimundo Correia e Alberto de Oliveira
Apesar dessa espécie de afastamento do tempo histórico em que era produzido, o Parnasianismo, por unir o preciosismo formal ao culto ao Belo, consegue por na mesma corrente artística Aisthesis e Logus, que geralmente estão em lados opostos. Agora, em que modelo de interpretação sobre o que é a arte o Parnasianismo se enquadra? A meu ver, a resposta é nenhum. Platão condenava a poesia por suas propriedades miméticas, alegando que isso a tornava perigosa por desviar as pessoas do caminho da verdade e despertar paixões nos seres humanos; logo, não seria o caso considerar o Parnasianismo uma corrente didática. Tampouco romântica, o extremo oposto principalmente no que tange a importância dada ao sujeito na obra de arte. O pensamento clássico seria aquele mais próximo dos ideais parnasianos, mesmo assim os dois pensamentos não são totalmente concordantes. Tem-se a Indústria Cultural como uma representação da corrente clássica, e o contexto em que o Parnasianismo emerge é como uma reação à vulgarização da obra de arte através da reprodutibilidade. 

Logo, vejo o Parnasianismo fora desses três entendimentos principais sobre a natureza da arte. Heidegger disse que “a obra de arte é por certo uma coisa ela mesma. A obra dá a conhecer, manifestamente com outro, ela torna outro manifesto; ela é alegoria. Com a coisa fabricada, algo outro ainda é trazido-junto na obra de arte (...). A obra é símbolo.”. Talvez isso ajude a entender melhor qual é a natureza da arte parnasiana: simbolista, remete a um passado que não se aplica mais à realidade em que o próprio poeta se encontra, revelando suas incertezas com relação ao futuro da própria arte. Na minha opinião, o poeta parnasiano esconde, por trás do elevado apuro técnico e culto à arte, um grande medo do futuro de sua própria condição de poeta.

Fontes:

  • GIL, Fernando C. A Ambivalência do Idealismo Classicizante na Poesia Parnasiana Brasileira. Revista Letras, Curitiba, n. 52, p. 39-50. jul/dez, 1999. Editora da UFPR

  • PEIXOTO, Sergio Alves. O Parnasianismo no Brasil: variações sobre um mesmo tema. Revista O Eixo e a Roda. Belo Horizonte, v. 19, n. 2, p. 1-133. Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários (Pós-Lit) da UFMG.

  • HEIDEGGER, Martin. A Origem da Obra de Arte. Tradução: Laura de Borba Moosburger. Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFPR, Curitiba, 2007.
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