Se François Truffaut, após ficar órfão muito cedo e ser criado num reformatório, não encontrasse André Bazin nas dependências de um cineclube parisiense, talvez toda a história do cinema de um país fosse diferente; provavelmente ele não teria entrado para a Cahiers Du Cinéma, e seus preceitos estéticos sobre a sétima arte não encontrariam uma nouvelle vague disposta a escutá-los. E se Truffaut não fosse um ávido leitor, daqueles que costumam escarafunchar sebos obscuros em busca de obras raras, talvez não tivesse jamais adaptado o livro de estreia de um jovem escritor de 74 anos. Henri-Pierre Roché, o escritor, era um jornalista identificado com o movimento dadaísta francês. Chegou a frequentar um grupo de jovens artistas do Montparnasse, entre os quais Pablo Picasso e Max Jacob. Entrou para o exército, e foi dispensado em 1916, em meio à 1ª Guerra Mundial – não foi uma das mais de 19 milhões vidas que ficaram nas trincheiras. Foi para os EUA e lá fundou a revista Blind Man, pioneira na publicação de manifestos dadaístas naquele país. Talvez não fosse preciso fazer mais nada, escrever mais nada. Mas ele decidiu que precisava de um livro, aquele que um cineasta francês chamado François Truffaut encontraria num sebo parisiense...
Truffaut em ação |
Essa aparição, ou “força da natureza”, como diz Jules em certo momento do filme, é Catherine (Jeanne Moreau). A atriz, que trabalharia de novo com Truffaut em A noiva estava de preto (La mariée était em noir, 1968), desperta a paixão dos dois amigos. Esse sentimento pungente, contudo, em momento algum se sobrepõe à amizade existente entre os dois, ao ponto de Jules, que sempre teve mais dificuldades em manter relações duradouras com mulheres, pedir ao amigo que não interfira e ser atendido. Assim, ele a Catherine passam a ser namorados em Paris, sempre com a companhia de Jim. Até que, com a Primeira Guerra Mundial, os dois amigos vão parar em trincheiras diferentes e param de se ver por um bom tempo.
Após o término do conflito bélico, Jules e Catherine moram no interior da Alemanha, têm uma filha, mas não o mesmo relacionamento de antigamente. Jim, então, lhes faz uma visita, tem uma conversa com o amigo que, surpreendentemente, diz que prefere dividir a mulher com outro a perdê-la de vez. Aí começa um ménage a trois dos mais refinados, uma grande reflexão sobre a amizade, o amor, enfim, sobre as relações humanas.
Eis aqui um dos grandes méritos do filme: apesar de ser um cine-livro – especialidade do diretor francês – em nenhum momento Jules e Jim tem o peso de uma grande obra literária, embora respeite completamente a história de Henri-Pierre Roché. A narração em off, acelerada no começo, ajuda a manter o tom de uma narrativa escrita, porém, os diálogos geniais parcialmente adaptados por Truffaut conferem ao filme a fluidez necessária. O longa estimula a reflexão, sem dúvidas, mas não se perde em grandes apontamentos literários. É sutil, alusivo, sem ser doutrinário; um daqueles clássicos imperdíveis.
O inusitado triângulo amoroso entre os dois amigos de longa data e a mulher com sorriso enigmático provoca algumas reações curiosas no espectador. Alguns detestam Catherine, pois pensam que ela estraga uma amizade bonita; outros veem nela o charme do filme, o vetor das transformações e de toda a discussão sobre o amor que a obra de Roché/Truffaut leva ao cinema. Talvez a visão negativa sobre a personagem de Jeanne Moreau venha do desfecho que ela dá à história, mas aí só assistindo ao filme para fazer esse julgamento!
Veja abaixo o trailer de Jules e Jim:
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