sábado, 26 de novembro de 2011

Clássicos do cinema que nunca existiram

O trabalho de um crítico de cinema não é fácil. Os parâmetros para considerar um filme bom ou ruim são, na maioria das vezes, subjetivos; fica difícil estabelecer um critério confiável o bastante para tornar a opinião irrefutável, como seria se trabalhássemos com uma ciência exata. A não ser que você tenha uma sintonia telepática assombrosa com determinado especialista em cinema ou ele abuse do senso comum, dificilmente as opiniões coincidem. Dá até para dizer que obtêm maior sucesso os críticos que demonstram amplo conhecimento na área e têm opiniões contundentes sobre tudo, ainda que essas não sejam de fato pertinentes. 

Se essa missão diária de um crítico já é problemática, tendo os filmes em mãos para avaliar e, eventualmente, classificá-los, imagina quão árdua não seria a tarefa de listar os melhores filmes nunca feitos? Impossível? Pois foi justamente o que fez o jornalista Chris Gore em 1999. Em seu livro The 50 greatest movies never made (sem edição no Brasil), Gore apresenta os projetos de filmes que nunca saíram do papel, por diversos motivos. Tem Orson Welles e sua adaptação de Joseph Conrad, Napoleão pela ótica de Stanley Kubrick, parceria entre Ingmar Bergman e Fellini... 

O Listando... dessa semana traz algumas dessas obras-primas que jamais foram concebidas, mas que mesmo apenas no esboço já são um deleite para qualquer fã de cinema. É uma pena que a maior parte já se tornou inviável, uma vez que os responsáveis pelos projetos estão mortos. Vamos conhecer cinco desses potenciais clássicos! 


1º) Napoleão – Stanley Kubrick: Um dos diretores mais aclamados do cinema, Kubrick tinha a vontade de dirigir um filme sobre o grande – sem ironias – militar francês Napoleão Bonaparte. As filmagens estavam programadas para depois que ele acabasse de filmar 2001: Uma odisseia no espaço (2001: A space odyssey, 1968). Kubrick já tinha, inclusive, visitado vários países à procura de locações para as filmagens: passou por Itália, França, Hungria, Checoslováquia e Romênia, onde o ditador Nicolae Ceausescu havia tornado possível uma das pretensões de Kubrick. Acontece que o diretor americano queria fazer uma tomada aérea de 75 mil soldados e 5 mil cavalos, e Ceasescu disponibilizou todo o Exército romeno mais quantos civis fossem precisos para viabilizar a cena. Mesmo assim, nenhum estúdio quis arcar com os custos de produção, afinal, seria preciso pagar esses 75 mil figurantes. Uma pena que à época a tecnologia disponível não podia “criar” essa multidão com um número bem menor de pessoas... 

2º) Hitler – Selznick/Hitchcock: Ousadia é pouco para definir as intenções do produtor americano David Selznick ao querer adaptar o livro de Hitler, Minha Luta, para os cinemas em 1941, com as chaminés de Auschwitz ainda em plena ebulição. Ele convidou ninguém menos que Alfred Hitchcock para dirigir o projeto, que, obviamente, não seria favorável a Hitler, basta dizer que Selznick era judeu. Como era de se esperar em tempos de guerra, o filme não foi liberado pelo Departamento de Estado americano. Já pensou num Hitler com o perfil psicológico complexo que Hitchcock confere aos seus personagens em um filme produzido por Selznick, o homem que tornou possível a adaptação de E o vento levou... (Gone with the wind, 1939)? Seria fantástico! 


3º) Federico Fellini/Ingmar Bergman: Os dois não têm estilos muito parecidos, mas o fato é que Ingmar Bergman era apaixonado pelo trabalho do diretor italiano e o convidou para fazerem um filme juntos. Os dois chegaram a tornar público o projeto no início da década de 70, mas as coisas não andaram e nunca mais se falou no assunto. Por sinal, em 1973, Bergman tentou fazer um remake de A viúva alegre ( The merry widow, 1952) – com Barbra Streisand no lugar que fora de Lana Turner. Devido à crise do petróleo nos EUA, faltou dinheiro para pagar Barbra Streisand e Bergman desistiu da refilmagem. Partiu para a adaptação de uma ópera obscura... 

4º) Billy Wilder – Um dia na ONU: Billy Wilder é um daqueles diretores que a gente pode dizer que fez de tudo. De Pacto de sangue (Double indemnity, 1944) a Quanto mais quente melhor (Some like it hot, 1959), Wilder rodou filmes noir, drama, comédia e fez sucesso com todos. No entanto, há um filme que ele não conseguiu levar a cabo. Com roteiro de quarenta páginas já escrito e os irmãos Marx convidados para fazer um longa sobre a ONU, o destino atrapalhou os planos de Wilder: Harpo teve um enfarte e, em seguida, Chico morreu. E a ONU se livrou do humor ácido do diretor de A montanha dos sete abutres (Ace in the hole, 1951). 


5º) Coração das Trevas/ Dom Quixote – Orson Welles: Estreando como diretor de cinema com nada mais nada menos que Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941), Orson Welles assustou os estúdios hollywoodianos com a polêmica e também o caminhão de inovações que seu debute trouxe para a sétima arte. Mas o primeiro filme de Welles não deveria ter sido tão problemático assim: a intenção dele era adaptar Coração das Trevas, de Joseph Conrad. O roteiro já estava pronto, mas aí veio a Segunda Guerra Mundial, os estúdios americanos começaram a perder dinheiro para o cinema europeu e o longa foi adiado. Para sempre, pelo menos para Welles. A obra-prima de Joseph Conrad só apareceu na tela grande em 1979, pelas mãos de Francis Ford Coppola e com nova roupagem: Apocalypse now modernizou de maneira brilhante o romance de 1902. Orson Welles também tinha o sonho de filmar Dom Quixote, vontade que nunca foi realizada. 


Fonte: As informações sobre os filmes foram extraídas do livro Um filme é para sempre: 60 artigos sobre cinema/ Ruy Castro; organização Heloisa Seixas. Companhia das Letras, 2006.
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